Após 15 anos à frente da empresa mais importante do mundo, Tim Cook está passando o bastão. Ele será sucedido por John Ternus — engenheiro, nadador e arquiteto de silício da Apple. Mas a Apple permanece com uma conta em aberto: inteligência artificial.
Existem partidas que surpreendem. E existem partidas que o mundo espera há tanto tempo que, quando acontecem, ninguém se espanta. Tim Cook, o CEO de 65 anos da Apple, se encaixa na segunda categoria. Quando a Apple anunciou, na segunda-feira, 20 de abril de 2026, que Cook deixaria o comando da empresa em setembro, as ações caíram 0,5%. Que pena para o drama.
Mas por trás dessa calmaria reside uma das maiores histórias de sucesso do mundo dos negócios dos últimos quinze anos. Cook assumiu o comando da Apple em 2011, quando Steve Jobs estava à beira da morte, e a empresa valia cerca de US$ 350 bilhões. Hoje, a Apple vale mais de 4 trilhões de dólares — tornando-a uma das poucas empresas a atingir esse patamar. Cook não conseguiu isso com visões revolucionárias do futuro. Ele conseguiu com genialidade operacional, com cadeias de suprimentos e com um ecossistema que aprimorou ao longo dos anos até se tornar invencível.
A cadeia de suprimentos como uma forma de arte
Steve Jobs era um visionário. Tim Cook era — e é — um engenheiro da cadeia de suprimentos. Isso pode soar como um elogio um tanto condescendente, mas não é. Enquanto Jobs exigia que cada parafuso fosse perfeito, Cook garantia que ele chegasse ao cliente no prazo e pelo preço certo. Sem Cook, a visão de Jobs seria apenas uma bela ideia em um cartaz.
Sob a liderança de Cook, a Apple construiu uma rede global de fornecedores que se tornou um modelo para escolas de negócios em todo o mundo. Ele expandiu a rede de lojas para mais de 200 novos locais, transformou o mercado chinês na segunda casa da Apple e criou um negócio de serviços — a Apple Services — que agora gera US$ 100 milhões anualmente. US$ 106 bilhões Receita. Apple Music, Apple TV+, iCloud, Apple Pay: tudo isso é criação de Cook, não de Jobs.
O lucro líquido da Apple para o ano fiscal de 2025 foi de US$ 112 bilhões — oito vezes mais do que em 2010. Um aumento de 699% apesar da pandemia, das tensões geopolíticas entre os EUA e a China e da pressão constante de órgãos reguladores em todo o mundo. Não importa como se analise a Cook, esses números são inegáveis.
“As maiores conquistas de Cook são a transformação financeira da empresa, a integração do Apple Silicon e a manutenção da dominância do iPhone no mercado global.” — analistas, BusinessToday
O Apple Watch está derrubando a indústria relojoeira suíça. Literalmente.
Atribui-se a Cook a criação de dois produtos que abriram categorias inteiramente novas para a Apple: Apple Watch e AirPodsPode parecer fútil, mas observe os números. O Apple Watch vendeu... 30,7 milhões de unidades — enquanto toda a indústria relojoeira suíça vendeu apenas 21,1 milhões de relógios. De uma só vez, Cook enterrou o relógio como acessório de moda e o ressuscitou como dispositivo médico.
AirPods? Esses dois fones de ouvido sem fio se tornaram um símbolo de status maior do que muitas marcas de luxo. E isso em uma categoria que nem sequer existia como produto de massa antes da Apple. Cook fez tudo isso com método, não por inspiração. O que, à sua maneira, é igualmente impressionante.
Sob a liderança de Cook, a Apple atingiu uma avaliação de um trilhão de dólares em 2018, dois trilhões em 2020, três em 2022 — e em outubro de 2025, tornou-se a terceira maior empresa do mundo, com um valor de 4 trilhões de dólares, atrás da Nvidia e da Microsoft. Isso era Cook em ação.
Siri e inteligência artificial: uma ferida aberta
E aqui passamos ao tema que estraga a declaração entusiasmada de Cook: a inteligência artificial.
Inteligência da Apple A garantia de Cook ao mundo de que a Apple sabe o que está fazendo com inteligência artificial foi recebida com uma mistura de perplexidade, escárnio e leve constrangimento. A internet rapidamente criou um apelido: “Ignorância em relação à Apple”Funcionalidades anunciadas sofreram atrasos, promessas não foram cumpridas e a Siri se mostrou inferior aos assistentes de voz lançados por concorrentes anos antes.
Em 2018, Cook contratou John Giannandro do Google com grande alarde — ele seria o chefe de IA da Apple, o responsável por moldar o futuro. Sua saída foi discreta em 2025. Paralelamente, outros pesquisadores seniores de IA deixaram a Apple, incluindo Ruoming Pang, que foi para a Meta. O ChatGPT mudou as regras do jogo em novembro de 2022, e a Apple de repente se viu três ou quatro gerações atrás da concorrência. Para uma empresa com essa reputação, foi uma experiência dolorosa.
Em janeiro de 2026, a Apple anunciou uma parceria com o Google para integrar o Gemini à Siri e à Apple Intelligence, permitindo tarefas mais avançadas na nuvem. Em algum lugar em Cupertino, alguém digitou palavras que a Apple jamais teria imaginado anos atrás: “Precisamos do Google.”
Isso foi um sinal claro de que a Apple — apesar de todo o seu poder — está atualmente ficando para trás, e não liderando, a corrida da inteligência artificial.
E o hardware? O hardware é sagrado.
Mas enquanto a Apple deixava o campo da inteligência artificial em segundo plano, o que talvez seja o verdadeiro legado de Cook amadurecia silenciosamente nos bastidores: Apple Silicon.
A transição dos processadores Intel para os chips da série M, desenvolvidos pela própria Intel, foi uma das maiores conquistas de engenharia na história da eletrônica de consumo. M1, M2, M3, M4 — cada um deles deixou a concorrência para trás. O MacBook com esses chips tornou-se uma alternativa profissional de peso para qualquer pessoa que antes fosse fiel às estações de trabalho com Windows.
A Apple não é apenas uma empresa de smartphones hoje em dia. Ela é um dos melhores fornecedores de hardware do planeta — para telefones celulares, laptops e, cada vez mais, para computação em no campo da inteligência artificialOs chips da Apple alimentam modelos de aprendizado de máquina com extrema eficiência energética. Quando se trata de computação de borda — processamento de dados em um dispositivo em vez de na nuvem — a Apple não tem igual. Este será o ponto forte da Ternus.
John Ternus: engenheiro, nadador, sucessor
A partir de 1º de setembro de 2026, a Apple liderará o mercado. João Ternus, um engenheiro mecânico de 51 anos da Universidade da Pensilvânia, ex-nadador competitivo e um homem que passou 25 anos na Apple. Ele esteve envolvido no desenvolvimento de todos os iPhones, iPads, AirPods e Apple Watches da última década. Foi ele quem apresentou o Apple Silicon ao mundo no palco.
Ternus está na Apple desde 2001. Ele começou projetando monitores. Hoje, ele está assumindo o comando de uma empresa de 4 trilhões de dólares.
“Ele tem a mente de um engenheiro, a alma de um inovador e a sensibilidade para liderar com integridade e honra.” — Tim Cook sobre a Ternus, Apple Newsroom, abril de 2026
Ternus, aos 51 anos, espelha Cook em sua posse. Especialistas o descrevem como alguém que combina a obsessão de Jobs pelo produto com a capacidade de tomada de decisão de Cook. Tecnológico o suficiente para entender cada parafuso. Carismático o bastante para se impor no palco principal. Sua tarefa será desafiadora: tornar a Apple uma empresa relevante no campo da inteligência artificial, mantendo ao mesmo tempo o domínio no setor de hardware, que é o verdadeiro legado de Cook.
Outro ponto interessante: a Apple manteve sua tradição de promoções internas ao escolher Ternus. Nada de estrelas de fora, nenhum futuro salvador do Vale do Silício. A Apple cresce de dentro para fora. Isso por si só diz muito sobre a cultura da empresa.
Conclusão: O fim de uma era, mas não o fim da Apple.
Tim Cook não era Steve Jobs. Ele nunca afirmou ser. Ele era o que a Apple realmente precisava após a morte de Jobs: um homem que não apenas aceitava acordos, mas os cumpria à risca. Sob sua liderança, a Apple se tornou... empresa líder mundial em hardware para o consumidor, com um ecossistema do qual um bilhão e meio de usuários têm dificuldade em se desvencilhar.
Sua fraqueza? Inteligência artificial. Isso é claro e inegável. A Apple ficou para trás, improvisou e dependeu de parceiros enquanto os concorrentes construíam seus próprios modelos de linguagem do zero. Mas a Apple tem uma arma que os outros não têm: hardware. Quando o mundo perceber que a IA é mais eficaz no dispositivo, e não na nuvem, a Apple estará lá, com os melhores chips, a melhor integração e o ecossistema que Cook levou 15 anos para construir.
John Ternus assume o comando de uma das poucas empresas no mundo onde a frase "hardware é o futuro" não soa como nostalgia, mas sim como uma visão estratégica. Cook fez da Apple um cofre. A missão de Ternus é transformá-la em um laboratório do futuro.
E Tim cookEle provavelmente sairá de Cupertino com um sorriso no rosto em setembro. Ele merece. Duas vezes.





